Wednesday, September 05, 2007

Jogue sua TV no lixo!!!

Este texto foi publicado no jornal Diário de Canoas há alguns anos. Continuo com o mesmo discurso.

A programação da televisão é ruim por que um público medíocre exige assim ou o público é medíocre por que a programação ruim assim os tornou? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Na verdade a discussão é irrelevante, todos têm consciência do ciclo vicioso, o que falta é iniciativa. Aliás, vicioso é a palavra correta, um termo para ser entendido literalmente. Estudos recentes mostram que a permanência na frente da telinha causa dependência. Lassidão, apatia, desânimo e preguiça são os sintomas apresentados pelos telemaníacos. Pode-se dizer que falta força, física e de vontade, para sair da frente da tv. Configura-se então o quadro característico dos fumantes, entre outros dependentes: a maioria sabe que faz mal, mas consome assim mesmo, dispõe-se a pagar o preço.
Alguns podem achar exagerado comparar a televisão com o tabaco, mas se fizermos uma análise mais radical, não será difícil chegar a números que tornam o aparelho mais nocivo do que o cigarro (em tempo, sou não-fumante). Inclusive seria justo dizer que o segundo deve muito do seu sucesso ao primeiro. A televisão é, como gostam de dizer alguns, um membro da família. O "grande irmão", como denominou George Orwell, ainda que em outro contexto. Sua abrangência é inquestionável, seu poder como ferramenta de vendas e manipulação é tão grande que assusta aos mais atentos e os faz pensar: "Tá degringolando... Imaginem se não tivéssemos órgãos reguladores".
Eu não olho televisão, mas o bombardeio é tão grande (jornais, revistas, internet, pessoas à minha volta) que se torna inevitável um mínimo conhecimento do que anda sendo veiculado. Não precisamos dissecar aqui as novelas excessivamente eróticas, os programas infantis pouco ou nada educativos, os programas de humor que são verdadeiros atentados à inteligência e outros exemplos da "arte" da imbecilização coletiva. Pra não abarcar um assunto que renderia páginas de crítica, podemos nos ater aos programas de auditório e ao jornalismo sensacionalista. Só isto já seria suficiente para justificar toda a degradação de valores morais, éticos, estéticos, humanos enfim, que se vê revolucionando as ruas. O mau caratismo destes dois tipos de programa reside no fato de se arrogarem nobres quando tudo o que fazem é promover e intensificar o já arraigado processo de alienação das pessoas. Os prejuízos são tão grandes que se fôssemos debitar na conta das emissoras, o mínimo que se poderia exigir é a prisão dos donos e o ressarcimento pelos anos de programação irresponsável. Essa programação garante audiência e gera lucros para as empresas a custo da exploração da pobreza, da ignorância, da vulgaridade e do desejo de projeção da massa ignara. Foi Andy Warhol quem disse que no futuro todos teriam seus quinze minutos de fama. Parece inverossímil que as pessoas se sujeitem a qualquer tipo de humilhação apenas para aparecer na televisão, mas é o que se vê em Programas do tipo "Ratinho", "Márcia", "Leão", "Datena" e tantos outros devidamente municiados de mulheres seminuas e quadros de "pegadinhas". Então temos quinze minutos de fama para trinta anos depauperados. Uma vida inteira, na verdade, se contarmos que essa "geração perdida" já não teve muita sorte no que diz respeito à situação política e econômica do país.
Chega de pão e circo, chega de embotamento e vida de ruminante. Jogue sua TV no lixo e vá ler um livro. É claro que você estará perdendo a parte boa da programação (que existe, é óbvio). Mas o que você ganha é incomensuravelmente maior do que aquilo que você perde. Elimine-se a televisão e teremos acabado com o maior instrumento massificador da nossa história. Ficaremos livres de quase toda a influência perniciosa que incute nas pessoas a necessidade de ser iguais. Livres do comportamento ditado pela mídia, livres das músicas tocadas à exaustão por conta de contratos com gravadoras, livres da ditadura das marcas e grifes, livres de uma sexualidade exacerbada que é nociva às nossas crianças, livres das novelas e dos enlatados norteamericanos, livres, enfim, para começar a desenvolver uma noção de individualidade e para pensar sobre o porquê da nossa sujeição a este tipo de narcose que é a televisão.

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