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O meu nome se insinua em frases cacofônicas
E perambula como samba-de-breque nas aliterações
Tudo o que sai de mim, gagueja-se
Me repeti mil vezes até perder o sentido
Agora me chamo Manjericão, Penico, Rolls Royce...
Poderia ser tão sereno, no entanto me traz problemas:
- Pare de saltar em cima destas sílabas! Me gritaram dia desses
Era um professor, eu acho, e era careca, quase sem nome
Fiz mira com meu guarda-chuva
E mandei-lhe uma tromba d'água
O que se pode esperar de um histrião na corda bamba?
Depois fiquei ali, parado, guarda-chuva pingando
Diria-se um "I" com circunflexo (que bonita invenção)
Mas o meu nome...
Meu nome só tem fonética quando a palavra é boa
E me chamar fica parecendo um preciosismo
É... é ornamento desnecessário este meu nome
Me redundo ao proferí-lo, sinto cócegas, rio...
Ah, por favor... não me chamem. Eu apareço.
Ele – Então esse fardo tornou-se demasiado cansativo, pesado para além do que meus ombros de caçador, mantenedor e reprodutor poderiam suportar. Se eu beijava o chão, tenha certeza, não era uma reverência, eu me prostrava sob a pressão dos milênios, por que houve um erro; não sou um neandertal, sou uma conseqüência. Você deveria saber onde eu estou. Me situo além do vigor biológico e das bem irrigadas ramificações sangüíneas e terminações nervosas. Eu sou um estilhaço da TV, do jornal, do out-door, da revista, da cultura ocidental e da percepção de mim mesmo. Morri estupidificado, estulto, embotado, de uma overdose de informação. Havia o seu sexo intumescido e havia o convite original do sentidos, mas sobreveio a dissecação e a dissertação, o tratado e as divergências e todas as hipóteses para o que se justificava num abrir de coxas. Eu perdi o vínculo febril com essa fenda sísmica. Adentrei uma outra caverna que não a sua, não a de neandertal – e bastaria ser só instinto – mas uma que surgiu como que para me reduzir ao mais ínfimo dos ancestrais. Estou no breu desta morada rochosa e é sem nenhuma reação que vou me transfigurando nesse bicho amorfo – moderno com seus apetrechos eletrônicos e os símbolos do status consumista, mas amorfo. Agora estou quase extirpando a consciência dessa carne morta, desse apêndice que aponta na direção contrária à sua justa culminância...
Ela – Meu bem... toma logo esse Viagra!
Todos os dias eu acordo e peço a ela: por favor me mostra, hoje, que você vale a pena. Mas ela não responde por que sequer ouve a súplica na opacidade de meus olhos. Ela nunca me sobressalta. Todas as manhãs eu espero que ela mergulhe em mim e resgate aquela inefável mulher que amei, a forma sob a qual ela se apresentou um dia. Mas ela é indefectível. Urge uma pontualidade britânica nos seus gestos gastos que já têm colocação milimétrica sobre a casa. Todos os dias eu me pergunto como pode ela se esquivar de um espectro tão amplo. Eu a busco, mas ela desaprendeu a língua que falávamos. Somos hoje íntimos estranhos que superaram até mesmo o constrangimento. E isso é aterradoramente o pior. Eu queria falar dos seus cabelos, mas eles não ondulam. Ela talvez queira comentar minha barba, mas eu não existo. Ah, Deus dessas pequenas mortes, a mulher que amei era única, mas esta que me ladeia está aquém de qualquer uma da rua. Vou dormir com todas agora. Verei chegar a época de um plantio torpe e semearei grãos de infidelidade. Grãos que vicejarão, como só poderiam fazer. Eu e esta que não conheço desgastaremos o solo numa monocultura de hábitos e nossos frutos nascerão secos, duros como pedra. Mas ela e eu permaneceremos ainda arraigados neste chão árido, esperando a chuva, esperando qualquer coisa...
Ensandecido de existência
Vagava alheio a si mesmo
Curiosa de sua providência
A noite sempre o aguardava
Calçadas e jornais velhos
Eram íntimos incômodos, tenazes
O frio também
Sujo de mundo
Fedendo a ruas
Tinha métrica caótica nos passos
Tinha poesia
E mijava nas calças
Filetes de saliva
Irrigavam um emaranhado de fios
Enfeitados de gordura e sol
O torpor de sua indiferença
Dançava alegre sob vaias
Pois nunca fora estilístico ou a rigor
Apenas vertia de seus trapos
Que à noite o engoliam
O que dele era asco imensurável
Transpunha conceitos roçando o divino
Deus o via com o canto dos olhos
E franzia a testa.
No dia em que fiquei louco me encheram de gestos comedidos,
de palavras brandas e conselhos inócuos.
Tarde demais!!! - gritei pra eles - Tarde demais!!!
E continuei gritando, vociferando em transe, me apegando
a despautérios e abocanhando generosos nacos de mundo.
Como me fartei de mundo!
Um cais fez morada em mim e nele aportaram flibusteiros,
corsários, piratas e degredados.Vinham de todos os lugares,
mas sempre apátridas. Ancorei a Nau dos Loucos e depois
fui além. Seguia o eco de meus próprios gritos, guturais e de
plenos pulmões. Estava amando-os. Eu era um Narciso sonoro
que se redescobria em timbres, modulações, sonâncias e dissonâncias.
Penso que inventei uma nova língua, uma língua para o futuro.
Às pessoas de agora, só pude devolver seus olhares.
Foram tantos e tão displicentemente jogados que já não
tinha mais onde guardá-los. Se não os restituísse, certamente
prejudicaria seus donos, que temem a tormenta, a tragédia,
a cisão do mundo e o juízo final.
A mim, no entanto, ninguém ressarciu a coreografia das
esquinas em plena sintonia com a música do universo.
Isso pra não falar do difícil sincronismo - árdua e deliciosamente
conseguido - entre minha dança e o coração das coisas.
Artigo que escrevi e saiu publicado numa edição do jornal Diário de Canoas, há uns três ou quatro anos. É textinho quase ingênuo, mas tudo bem... eu sou um cara ingênuo.